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ESTADÃO – Mais de 1,1 milhão de casos, 51,4 mil óbitos e R$ 2,5 bilhões no tratamento hospitalar da Covid-19

DRG Brasil
Postado em 25 de junho de 2020 - Atualizado em 28 de setembro de 2023

Artigo do Prof. Marcelo Carnielo (Planisa) e do Dr. Renato Couto (Grupo IAG Saúde) aborda os resultados econômicos da cadeia produtiva da saúde neste momento histórico, tanto na esfera privada, quanto na pública, impactando pacientes, médicos, governo, indústria farmacêutica, operadoras e prestadores.

A cadeia produtiva da saúde atravessa um momento único na sua história, tanto na esfera privada, quanto na pública e que atinge todos os agentes, do cliente que utiliza os serviços, passando pelos médicos, governo, indústria farmacêutica, operadoras de planos de saúde e instituições prestadoras de serviços.

Os resultados econômicos dos prestadores de serviços não são animadores, com queda expressiva de atendimento e receita, aliado à manutenção de seu custo fixo, que representa de 70 a 80% do custo total. A indústria da saúde diminuiu suas vendas e alguns hospitais têm dificuldades no pagamento de fornecedores. As operadoras de saúde suplementar estão com queda da sinistralidade de caixa, contabilizaram 66% em maio, segundo boletim Covid-19 da ANS (Agência Nacional de Saúde), contra níveis anteriores próximos de 80%. As operadoras têm ciclo financeiro longo e os dados de sinistralidade de abril se referem às despesas assistenciais de fevereiro que ainda não refletem os impactos totais da pandemia na redução de atendimentos. Entretanto, o segundo semestre das operadoras apresenta incertezas determinadas pela expectativa de retomada dos procedimentos represados pela pandemia, aliado à queda de receita pelo aumento do desemprego determinado pela recessão. Do lado público, a situação não é diferente, a diminuição do PIB (Produto Interno Bruto) determina redução de recolhimento de impostos, associados aos gastos adicionais consumidos durante a pandemia. Enfim, a pandemia deve reduzir o mercado de saúde e agravar as dificuldades dos cidadãos, prestadores de serviço, operadoras e governo. 

Se já não bastasse o cenário econômico de recessão da saúde, a pandemia que acometeu 1,1 milhão de brasileiros encontra-se ainda em sua fase ascendente, demandando mais recursos para tratamento que pode se prolongar até a chegada da vacina em futuro incerto. Há ainda a incerteza dos custos assistenciais hospitalares da nova doença, que aumenta as dificuldades de negociação entre comprador de serviços e hospitais na busca de um preço justo do serviço.

Mas afinal, qual é o custo do tratamento hospitalar de pacientes com o diagnóstico de Covid-19, especificamente em utilização de leitos de internação?

Para tentar responder, a Planisa realizou estudo com doze hospitais que disponibilizaram unidades para atendimento do paciente Covid-19, no período de abril a maio. A metodologia de custeio foi padronizada, a qual se considerou que todos os custos de produção fossem alocados ao custo da diária, incluindo custos diretos e indiretos, ou seja, todos os custos necessários para operação de um leito hospitalar, como custos com equipes médica e enfermagem, materiais, medicamentos, EPIs (Equipamentos de Proteção Individual), serviços de apoio e administrativo, entre outros.

Algumas questões são importantes compreender, que justificam as variações de custos das diárias hospitalares, que são: complexidade, ocupação e pessoal. Em hospitais que atendem pacientes mais complexos, o custo unitário da diária é maior do que em hospitais que atendem casos mais simples. Neste caso, o consumo de medicamentos e materiais hospitalares são os principais responsáveis no aumento destes custos. Em hospitais com grande volume assistencial que atendem próximo de sua capacidade instalada, o custo unitário é menor do que em hospitais que têm baixo volume de produção. O custo fixo alto, normalmente presente nos hospitais, torna indispensável a utilização da capacidade instalada. Essa variável é a principal justificativa de custos unitários de diárias elevados nos hospitais; ao contrário do que imaginamos, temos muitos hospitais ociosos, principalmente os hospitais de pequeno porte, que representam a maioria dos hospitais brasileiros.

Ainda, em um país com as dimensões do Brasil, as variações salariais não são pequenas e os custos com pessoal, incluindo médicos, chegam a representar de 50% a 70% dos custos de um hospital, portanto, qualquer variação de salário e honorários médicos pode gerar impacto expressivo na composição do custo da diária.

Neste estudo, o custo médio de diária em unidade de internação não crítica com paciente Covid-19 foi R$ 1.400, com taxa de ocupação média de 50%; enquanto em unidades de internação crítica adulto (UTI), o custo médio foi R$ 2.452, com taxa de ocupação média de 67%.

Outro estudo realizado pelo DRG Brasil com hospitais que atendem a 22% das vidas da saúde suplementar brasileira, envolvendo 3.988 internações de pacientes Covid-19, mostra que estes pacientes apresentam o dobro da complexidade e criticidade clínica medida pelo DRG Brasil e permanência em UTI e hospitalar 30,5% maior que a média nacional das outras doenças clínicas. O consumo de recursos por dia de internação aumenta com a complexidade e criticidade clínica. Os pacientes Covid-19 que usam UTI têm uma permanência hospitalar média de 14,8 dias, sendo oito dias na unidade de terapia intensiva e 6,8 dias em unidade de internação não crítica. Dos pacientes que se internam, 33,1% usaram UTI. Os pacientes que não usam UTI (66,9% dos casos) ficam 6,5 dias em instalações não críticas. Estes dados estão em consonância com a experiência de Wuhan, na China e Kaiser Permanente, na Califórnia.

Se o espectro clínico da doença no Brasil for semelhante ao de Wuhan, 14% dos infectados precisaram de hospital e 5% dos infectados precisaram de UTI. Se aplicarmos os estudos de Wuhan, da Planisa e do DRG Brasil para cada 1,1 milhão de infectados, teremos 154.000 internações, destes 99.000 usarão apenas leitos não críticos, consumindo 643.500 leitos/dia (R$ 900,9 milhões);  55.000 pacientes usarão  UTI e  consumirão cerca 440.000 leitos/dia de UTI (R$ 1,078 bilhão),  além de 374.000 leitos/dia (R$ 523,6 milhões)  em acomodações para reabilitação e na fase inicial da doença exclusivamente para estes pacientes de UTI.

O custo assistencial hospitalar direto da Covid-19 para cada um 1,1 milhão de infectados é de cerca de R$ 2,503 bilhões. O custo econômico é mensurável, mas o sofrimento das vidas perdidas é incomensurável.

Marcelo Tadeu Carnielo é administrador, diretor técnico da Planisa e especialista em gestão de custos hospitalares.

Renato Couto é Doutor em infectologia, presidente do Grupo IAG Saúde e co-fundador do DRG Brasil.


Fonte: https://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/mais-de-11-milhao-de-casos-514-mil-obitos-e-r-25-bilhoes-no-tratamento-hospitalar-da-covid-19/

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