Modelo Assistencial

O que são condições adquiridas hospitalares: falhas que prejudicam o cuidado baseado em valor

DRG Brasil
Postado em 24 de fevereiro de 2021 - Atualizado em 10 de março de 2021

Existe diferença entre condições clínicas surgidas durante a internação hospitalar, associadas à doença base do paciente, e aquelas determinadas por falhas no processo assistencial. Entenda!

Você sabe interpretar os termos e conceitos relacionados a “condição adquirida hospitalar”? Nesse post vamos te ajudar a compreender o que diferencia uma condição clínica que surge durante o período de internação hospitalar - e que está associada à doença base do paciente -, daquela determinada não pelas condições do paciente, mas por falhas no processo assistencial.

As condições adquiridas no hospital – CAH (Hospital Acquired Conditions - HAC) são condições clínicas ou complicações que não estavam presentes quando um paciente foi internado, mas se desenvolvem como resultado de erros ou acidentes no hospital.

Veja algumas definições para “erro” e “evento adverso” encontradas na literatura:

  • Erro: falha que impede uma ação planejada ser completada como pretendido (erro de execução) ou o uso de um planejamento errado para alcançar um objetivo (erro de planejamento);
  • Erros assistenciais: erros ocorridos durante o processo de assistência à saúde que resultam ou têm o potencial de resultar em dano para o paciente.
  • Evento adverso: dano ao paciente ocorrido durante o processo assistencial que não foi determinado pelas condições clínicas de base do paciente. Um evento adverso atribuído a erro é um evento adverso prevenível.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou um relatório fornecendo uma visão geral detalhada do quadro conceitual da Classificação Internacional de Segurança do Paciente (CISP), que inclui uma exposição de cada classe, conceitos-chave com termos preferenciais e aplicações práticas.

Em relação aos conceitos-chave, destacamos abaixo os que se associam com o objetivo do nosso tema:

  • Erro: não executar a ação pretendida conforme planejado ou aplicar um plano incorreto;
  • Evento: algo que acontece com um paciente ou que lhe afeta;
  • Circunstância notificável: situação com alta capacidade de causar danos, mas em que não ocorre nenhum incidente;
  • Incidente relacionado à segurança do paciente: evento ou circunstância que causou ou poderia ter causado danos desnecessários a um paciente:
    • Quase-incidente (near-miss): incidente que não atinge o paciente;
    • Incidente sem dano: atinge o paciente porém não causa nenhum dano significativo;
    • Incidente com dano (evento adverso): incidente que causa danos a um paciente.
  • Dano: alteração estrutural ou funcional do organismo e/ou qualquer efeito prejudicial derivado dele. Inclui os conceitos de doença, lesão, sofrimento, deficiência e morte:
    • Dano associado com cuidados de saúde: danos resultantes de planos ou medidas tomadas durante ou associadas à prestação de cuidados de saúde, não devido a uma doença ou lesão subjacente.

Entendendo os contextos de incidentes

As condições adquiridas (erros que atingem o paciente podendo causar algum dano ou não) surgem em um ou mais pontos da linha de cuidado assistencial. Ou seja, as condições para o erro estão relacionadas às tarefas, às pessoas e ao ambiente envolvidos com estas tarefas ao longo da trajetória do paciente dentro do hospital. A figura abaixo mostra esquematicamente a cadeia de valor do processo médico-hospitalar:

Cadeia de valor do processo médico-hospitalar

Fonte: Elaborado pelos autores

segurança-do-paciente

A OMS descreve 13 possíveis contextos nos quais os incidentes podem surgir. Veja no quadro abaixo:

Contextos de Incidentes Relacionados à Segurança do Paciente

Fonte: OMS

Contextos em que os incidentes podem ocorrerExemplos de processos/tarefas em cada contexto em que incidentes podem ocorrer
Acidentes com pacientesExposição a quedas; exposição a produtos químicos e a outras substâncias; exposição a mecanismos térmicos; exposição a força perfurante; outros
Gestão clínicaDimensionamento da equipe assistencial; identificação do paciente; consentimento informado; continuidade dos cuidados; outros
Comportamento dos profissionais da saúdeNão cooperativo/obstrutivo; inapropriado; imprudente; perigoso; abuso de substância; assédio; discriminação; agressão verbal, física, sexual; outros
Dispositivos médicos/equipamentosControle de patrimônio/programa de controle e manutenção de equipamentos/dispositivos/bens; outros
DocumentaçãoFolhas de evolução; registros médicos; avaliações; interconsultas; lista de verificação; outros
Gestão de recursos/organizaçãoAdaptação e gerenciamento da carga de trabalho; disponibilidade/adequação de camas/serviços; disponibilidade/adequação de recursos humanos; organização de equipes; disponibilidade/adequação de protocolos/diretrizes; outros
Infecção relacionada à assistênciaInfecções relacionadas a procedimentos invasivos; infecções por transmissão cruzada; infecções de sítio cirúrgico; outros
Infra-estrutura/instalaçõesControle de patrimônio/programa de controle e manutenção das instalações; outros
Medicamentos/líquidos para administração endovenosaPrescrição; dispensação; preparo; outros
NutriçãoPrescrição; preparação; cozimento; dispensação; administração; conservação; outros
Oxigênio/gases/vaporesRotulagem do cilindro; código de cor; travas de segurança; armazenagem; prescrição; administração; distribuição; outros
Procedimento assistencialDiagnóstico; tratamento; intervenção; confinamento; restrição física; outros
Sangue/produtos sanguíneosProvas pré-transfusionais; prescrição; preparação; administração; outros

A OMS também elenca as principais causas que determinam a ocorrência dos incidentes relacionados à segurança do paciente:

O processo:

  • Não é feito quando indicado
  • É incompleto/inadequado/incorreto
  • Não está disponível
  • Processo realizado no paciente errado
  • Processo realizado na parte/lado/local do corpo errado

Os medicamentos, sangue, nutrição, e outros, necessários para a assistência:

  • Dose/concentração/frequência/via de administração erradas
  • Instruções de uso/dispensação erradas
  • Condições de armazenamento/conservação inadequadas
  • Omissão de medicação ou dose
  • Validade expirada
  • Efeito adverso

Os equipamentos, materiais, e outros, necessários para a assistência:

  • Embalagem inadequada
  • Indisponibilidade
  • Sujo/contaminado
  • Falha/mau funcionamento
  • Mal instalado/conexão incorreta/retirada do local de uso
  • Erro de uso do usuário

A infra-estrutura e instalações necessárias para a segurança do paciente:

  • Inadequada/desgastada/defeituosa
  • Indisponível

Analisando as condições adquiridas

Para o Analista de Informação em Saúde, este conhecimento é de crucial importância, uma vez que identificar corretamente uma condição associada à doença de base e uma condição adquirida poderá influenciar no agrupamento DRG e, consequentemente, no nível de complexidade assistencial, na formulação dos custos com recursos consumidos e na avaliação de desempenho.

O ponto central na codificação das condições adquiridas é identificar se o evento a ser codificado trata-se da evolução natural da doença de base do paciente, ou não.

Lembre-se: eventos que se manifestam durante a internação hospitalar e que estão associados à doença de base do paciente não devem ser codificados como condição adquirida. São situações clínicas que devem constar como CIDs Secundários.

Uma última dica importante é que o Analista de Informação em Saúde jamais deve concluir que um evento é uma condição adquirida. Ele ou ela deve buscar evidências no prontuário e, na dúvida, interagir com o Núcleo de Segurança do Paciente e com o médico responsável para consenso.

Leia mais sobre o tema em:


Fontes:

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