Covid19

Mais de 300 mil óbitos, quase R$ 30 bi no tratamento hospitalar. Qual é a prioridade da vacina?

DRG Brasil
Postado em 8 de abril de 2021 - Atualizado em 30 de junho de 2021

Artigo publicado no Valor Econômico, com participação da Planisa, DRG Brasil, UFMG e Feluma, mostra porque a vacina possui excepcional relação custo-benefício. Veja o custo estimado da Covid-19 para o sistema de saúde brasileiro.

O jornal Valor Econômico desta quinta-feira, dia 08 de abril, trouxe um artigo com o tema “Qual é a prioridade?”, escrito por Marcelo Carnielo (Planisa), Renato Couto (Grupo IAG Saúde e DRG Brasil), Tania Grillo (Grupo IAG Saúde e DRG Brasil) e Francisco Cardoso (Nescon/UFMG e Instituto Feluma).

Os autores expressam grande pesar pelo fato de o Brasil já ter ultrapassado a marca de 300 mil óbitos, ainda com perspectivas incertas quanto ao controle do contágio do novo Coronavírus – embora a vacinação avance lentamente.

Num cenário de insuficiência de vacina e de colapso dos recursos hospitalares, é fundamental que se definam prioridades para diminuir perdas de vidas humanas e garantir acesso da população a uma assistência à saúde digna.

O que os números das internações por Covid-19 nos mostram, em termos de necessidade de recursos

Foi realizado um estudo usando a base de dados da plataforma de valor em saúde DRG Brasil, que abrange 334 hospitais, totalizando 53.822 leitos que assistem a cerca de 15,6 milhões de brasileiros, cobertos pela saúde suplementar e pelo SUS, distribuídos em todas as regiões do país.

Usando a plataforma, os autores analisaram 60.384 internações de pacientes internados por Covid-19, no período de março de 2020 a março de 2021.

Ao fazer a avaliação dos óbitos, foi constatado o que já era esperado: 82,9% dos óbitos hospitalares verificados nas internações analisadas ocorreram nos maiores de 60 anos, que é a população mais vulnerável ao vírus. Os achados sinalizam fortemente, e de maneira contundente, a prioridade que a vacinação no Brasil deve seguir para impactar definitivamente na mortalidade.

33,28 milhões de doses de vacina anti-Covid-19 poderiam evitar 82,9% das mortes dos brasileiros”, concluem os autores.

Os indivíduos com mais de 60 anos representam 51,1% de todas as pessoas internadas com Covid-19 – proporção que tem se mantido nos últimos 90 dias. Essa faixa-etária consumiu 61,8% de todos os leitos e 72,9% dos recursos de ventilação mecânica usados para o tratamento da doença nos hospitais estudados. Mais uma vez, esses números reforçam que a vacinação dos idosos 60+ poderia significar uma liberação em massa de recursos essenciais para atender os casos graves.

Quanto a pandemia da Covid-19 custou para os hospitais e os sistemas de saúde brasileiros até o momento?

custo-pandemia-brasil

A Planisa, empresa especialista em custos hospitalares parceira da plataforma Valor em Saúde Brasil, fez um estudo abrangendo 38 hospitais com unidades para atendimento de pacientes com Covid-19, no período de abril de 2020 a fevereiro de 2021. No custo da diária foi padronizado que entrariam materiais hospitalares, medicamentos e honorários médicos.

Neste estudo, a Planisa apurou que:

  1. O custo médio de diária em unidade de internação não crítica com paciente Covid-19 foi de R$ 1.289;
  2. Nas unidades de internação crítica adulto (UTI) o custo atingiu o patamar de R$ 2.306.

Se comparados com os pacientes clínicos não acometidos pela doença, os pacientes Covid consumiram em média 2,5 vezes mais recursos. Esse achado é determinado pelo aumento proporcional da complexidade e criticidade clínica nessa população, mensurado pela metodologia DRG Brasil.

Dos pacientes avaliados que precisaram internar para tratamento da Covid-19, 33,4% foram para a UTI e 17,4% usaram ventilação mecânica, com uma permanência hospitalar média de 9,8 dias. Os pacientes que usaram terapia intensiva ficaram internados em média 16,8 dias, sendo 7,2 deles na UTI.

Se o espectro clínico da doença e os custos no Brasil forem semelhantes ao estudo dessa base, é possível estimar o agregado do custo direto hospitalar da Covid-19 até o momento:

  • Considerando que os 300 mil óbitos registrados até o presente equivaleriam a 16,2% dos internados (mortalidade do estudo), isso permitiria estimar que um total de 1.851.185 pessoas foram internadas em hospitais por Covid-19 no país (do SUS e da saúde suplementar).
  • Se levarmos em consideração a permanência média de 9,8 dias, estas internações consumiram até agora 18.148.148 dias de hospital.
  • Se 33,4% desses pacientes internados precisaram de UTI, isso corresponde a  618.519 de pessoas, que consumiram 4.453.333 dias de terapia intensiva (pensando na permanência média de 7,2 dias).
  • Aplicando os custos de diária levantados pela Planisa, poderíamos estimar que R$ 10,26 bilhões foram gastos em UTI e R$ 17,98 bilhões em unidade de internação, totalizando 28,26 bilhões de reais.

Esse custo total calculado corresponde a aproximadamente 10% do orçamento da saúde do Brasil. E aqui não estão incluídos os custos de reabilitação, nem do cuidado com as sequelas da doença.

Qual cenário deveríamos ver no futuro próximo, em relação à priorização das vacinas

Passado um ano do anúncio de calamidade pública decorrente da pandemia no Brasil, é absolutamente correto afirmar, uma vez mais, que a melhor estratégia em saúde é a prevenção.

A vacina possui uma excepcional relação custo-benefício, porque é muito barata. Se forem corretamente priorizados na vacinação os maiores de 60 anos, 31,8 milhões de doses completas serão utilizadas e se evitará potencialmente um enorme contingente de mortes e uma carga de sofrimento humano incomensurável – além das imensas perdas econômicas e da memória nacional que se extingue com a partida dos cidadãos mais velhos e experientes.

O custo econômico é mensurável, e pode ser recuperado com o esforço de todos, mas o sofrimento das vidas perdidas não.

Para ler a matéria na íntegra no site do Valor Econômico, clique aqui.


Referências

Autores:

  • Marcelo Tadeu Carnielo é administrador, diretor técnico da Planisa e especialista em gestão de custos hospitalares
  • Renato Couto é Doutor em infectologia, presidente do Grupo IAG Saúde e co-fundador do DRG Brasil. Prof. Faculdade de Medicina, Ciências Médicas de Minas Gerais, FELUMA
  • Francisco Carlos Cardoso de Campos “Chico Poté” é sanitarista, Mestre em Administração pelo CEPEAD/FACE/UFMG, pesquisador do Núcleo de Estudos em Saúde Coletiva – NESCON, da Faculdade de Medicina da UFMG e pesquisador do Instituto Feluma de Inovação da Gestão em Saúde.
  • Tania Grillo é Doutora em infectologia, presidente do Grupo IAG Saúde e co-fundadora do DRG Brasil. Profa. Faculdade de Medicina, Ciências Médicas de Minas Gerais, FELUMA

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