Covid19

Mercado da saúde: a retomada para sairmos fortalecidos da crise

DRG Brasil
Postado em 27 de julho de 2020 - Atualizado em 12 de janeiro de 2021

A segunda live em associação com a Deloitte recebeu Enrico De Vettori, Chief Operating Officer do UnitedHealth Group Brasil e José Carlos Abrahão, Diretor da OPTIONS Consultoria & Gestão.

O último programa do DRG Brasil Convida foi comandado pelo presidente do Grupo IAG Saúde, Renato Couto e pelo sócio de Life Sciences & Health Care da Deloitte, Luis Fernando Joaquim, e abordou as premissas para o mundo dos negócios pós-pandemia de Covid 2019. Acompanhe na transcrição.

Renato: Joaquim, quais as projeções você tem trabalhado na Deloitte?

Joaquim: Bom, estamos enfrentando uma pandemia juntos, algo único. E é uma pandemia que traz impactos dos mais variados. Analisando o setor, nessa primeira linha de raciocínio, observamos o PIB do país a partir de 2013, e cruzamos com a quantidade de beneficiários na saúde suplementar. Hoje, no Brasil temos um pouco mais de 211 milhões de população e em torno de 47 milhões dessas pessoas possuem o plano privado. Entendendo o cenário atual, nós teríamos um impacto de mais de 6,5 milhões de pessoas desempregadas e isso implicaria diretamente no acesso aos planos de saúde, por exemplo.

Renato: Interessante, Joaquim! Enrico, como você vê essa mudança? De menos recursos para a saúde?

Enrico: Dr. Renato, acredito que a saúde irá se sobressair. É verdade que vamos ter um impacto em todos os países, alguns mais, outros menos. O Brasil, sofrerá um pouco mais. Nós estamos tomando algumas medidas e direções que talvez nós deixemos por mais tempo na crise – o que afetará ainda mais a nossa economia. Contudo, eu gostaria de ressaltar que a saúde como um todo sairá muito fortalecida. Porque o mundo inteiro jamais vai esquecer dos equívocos que cometeram por relegar, por não priorizar algo tão básico quanto a questão sanitária, a saúde e a vida, e nós estamos pagando um preço muito alto por isso.

José Carlos: Nós temos uma crise tripla: sanitária, econômica e política. Então por haver uma crise sanitária atenua, as pessoas vão querer contato com o plano de saúde, elas vão querer segurança. E tem o agravante porque além da perda de PIB, nós estamos tendo um impacto direto na renda. O primeiro resultado prático disso é o encolhimento com a oferta de infraestrutura e de empresas que estão se preparando para uma retenção - isso quando falamos principalmente das operadoras. E do lado dos prestadores, sem dúvida nenhuma, há uma grande oportunidade. Finalizo a minha colocação dizendo que alguns comportamentos vieram para ficar, entre eles, o uso da telemedicina.

Renato: Enrico, como você vê a questão dos ganhos de eficácia e eficiência, ou seja, entrega de valor? Como vocês enxergam essa questão da entrega de valor para os seus clientes como um caminho de sustentabilidade?

Enrico: Renato eu entendo que nos não temos saída. A janela ficou muito estreita, a de se ter uma eficiência, uma eficácia para se manter ou para se tornar competitivo. Então não é mais uma escolha. Nós temos que ter uma maturidade, e eu acredito que o paciente sai ganhando pois ele estará no meio da solução. Veja: muitas pessoas falam mal do sinistro. O sinistro é um bom amigo, sem ele, há custo. Aliás aprendi isso com o Sr, Dr. Renato. O custo é, sem dúvida nenhuma, um esforço de produção para entrega. O sinistro de modo igual. A partir disso, entendo que a gente vai afunilar mais o modelo de negócio, o modelo de governança, o modelo de gestão e o modelo de operação. Isso tudo amarrado com a estratégia e existindo o senso de prontidão de mudança. Quando nós pensamos nas clínicas, nos prestadores, nas operadoras de menor porte ou de médio porte é possível que sofram um pouco mais. Já estávamos em um momento difícil. E entendo que virá também algo no sentido de uma grande divisão para quem quer entregar valor e para aqueles que desejam apenas fazer negócio e se manter no setor.

Apesar de todas as dificuldades e dos impactos que teremos, eu acredito no Brasil, por ser um país que entra rapidamente em uma crise, mas que sai rapidamente. Acho que as empresas brasileiras de saúde têm um ganho porque tem muitas empresas que são de fora, ou são empresas de grande porte que têm caixa para enfrentar a crise. Algo que sempre falo quando possível: é um privilégio ter o SUS! Se nós não tivéssemos o SUS, nós estaríamos passando de forma diferente e um dos aprendizados é a relação público e privado nessa pandemia. A pandemia trouxe ensinamentos muito duros de época de guerra, mas em contrapartida, vemos elegância, respeito, compaixão e valores.

Renato: É bastante animador ver uma empresa desse porte ter como mote central de sustentabilidade a entrega de valor ao cliente e a melhoria do resultado assistencial. José Carlos, dentro da colocação do Enrico, como você enxerga essa possibilidade no sistema?

José Carlos: Bom, acho que essa crise está nos trazendo vários “despertar”, entre eles, o despertar de trabalhar, fundamentalmente, a prevenção e a promoção da saúde. Não tem mais espaço para se discutir isso. Sei de várias companhias que já trabalham assim. Mas esse trabalho terá que ser mais acelerado, mais intensificado, até porque a garantia da entrega vai ser dada por onde irá durar mais. Para você ficar mais tempo ele irá acelerar todo o projeto, de prevenção e promoção. Daí vem novos negócios, como a telemedicina, que durante anos foi discutida a sua regulamentação e viabilização ou tele atendimento. Essa veio para ficar pós-pandemia.

Hoje, alguns questionamentos pairam: se estamos saindo da crise, se vamos sair da crise e como vai ser o retorno do atendimento nos hospitais e consultórios. O médico, profissional preocupado com o novo padrão de higienização de controle das suas áreas, e o paciente, preocupado em retornar. Além disso, questionamentos sobre a telemedicina e telessaúde ganham espaço. Quantos atendimentos de acompanhamento poderão ser realizados com total segurança através da telessaúde? Fica a pergunta.

Renato: Vejo como uma grande perspectiva de negócio os cuidados com a terceira idade, afinal, ela será uma população cada vez maior e que precisa se manter saudável. Enrico, o que você espera da sua própria rede e de seus fornecedores? Qual entrega você quer?

Enrico: Nós precisamos fazer as coisas certas, sérias e céleres. Não dá mais para fazer negócios da maneira como nós fazíamos, que poderia ser bom para cada lado. Ou nós identificamos as oportunidades ou não existe modelo de gestão. Falo disso quando vamos credenciar um hospital, o fornecedor de tecnologia, a equipe médica.

Renato:  E você, José Carlos, qual entrega você quer?

José Carlos: Se tratando de prevenção e promoção da saúde, teremos que ser proativos. Junto do beneficiário, o mercado vai ter que ser proativo e modelar produtos dentro desse novo perfil. Quando eu falo isso, o controle da informação dos dados para que você possa realmente cuidar dessa população vai ser fundamental. Essa gestão vai ter que sair do discurso e ir para a prática com foco em garantia de uma entrega com qualidade.

Nesse momento de lateralidade será permitido que as operadoras trabalhem novos produtos; que os hospitais, clínicas e laboratórios vejam essa oportunidade - seja para a saúde corporativa, seja para atenção primária, do desperdício, dos exames. Vamos trabalhar as oportunidades. Mas, dessa vez essa crise vai terminar quando? Quando vai chegar uma vacina? Essa vacina será realmente eficiente? Essa vacina terá durabilidade? Independente dos inúmeros trabalhos, que droga será essa? O que você falou, no início dos primeiros pacientes, da Covid no mundo, a briga era por respirador. Hoje, já se viu que você tem as manifestações hematológicas, e que muitas das vezes não é pegar paciente e jogar ele no respirador. Então, a dinâmica da doença vai influenciar na criação do produto. Esse produto vai ter que ser criado a seis, oito, dez mãos. As parcerias terão que ser realmente “parcerias” com outro olhar: de preservação, perenidade do sistema e a sustentabilidade entra nisso, com esse lado assistencial. Não saberemos como será o novo perfil epidemiológico. O sistema de saúde vai ter que realmente se reinventar, e aí vem de novo, não tem mais espaço para aquela discussão público e privado - nós temos um grande sistema de saúde. Nós temos que interagir, aproveitar a sinergia dos sistemas para que possamos proporcionar uma saúde de melhor qualidade para nossa sociedade, valorizando as pessoas - o maior capital da gestão são as pessoas, e isso vai ter que sair do discurso e vir para nosso dia a dia.

Renato: Nessa última rodada, gostaria de escutar a palavra dos convidados sobre as inovações que são necessárias para sustentabilidade do sistema.

Joaquim: Bom Renato, fomos atropelados por esse novo normal que é a palavra que mais tenho ouvido com frequência, como já comentamos. Saímos de uma crise sanitária impactada e aí traz o impacto econômico, e isso faz refletir em todos os negócios. Todos os modelos de alguma forma serão repensados. Mas, acho que no fundo, a pandemia vai trazer um novo olhar sobre o beneficiário. Eu acho que a gente precisa realmente caminhar apesar da visão de epidemiologia e populacional. O mercado precisa ir para um atendimento mais digital, um atendimento que entenda a necessidade do cliente, que não está mais disposto a filas de espera, recepção, aguardando ao lado de pessoas tossindo ou espirrando. É preciso repensar isso, no novo comportamento, em tratamento mais personalizado e humanizado.  Precisamos de novas ferramentas e caminhos digitais de maneira humanizada e personalizada para tratar dados e informação de forma assertiva. E para fechar, “os incentivos incentivam”, então na medida que o modelo de financiamento estimula, incentiva essa tríade. A pandemia mostrou uma dicotomia entre o setor privado e público. A nossa sociedade, os nossos sistemas brasileiros e não 47% do setor privado e restante do setor público. A gente precisa trabalhar mais unido, não faz sentido para mim hospitais privados vazios como temos visto em vários setores, hospitais públicos cheios padecendo e alguns hospitais de campanha sendo construídos. Então acho que precisamos repensar todo o modelo estrutural e a saúde como um todo, porque o nosso maior bem são as pessoas, no final das contas a gente discuti setor para atender as pessoas. E enquanto executivos, se nós não sairmos da crise como entramos, fracassamos como seres humanos, fracassamos enquanto executivos que precisam mudar esse setor.

José Carlos:  Nós precisamos e devemos ressaltar o papel das nossas lideranças, que precisam apoiar e aprimorar a resiliência, a resignação e promover o diálogo. Não conseguimos nada público, privado, prestador, operadora, modelo de remuneração - precisamos realmente sair da discussão e ir para a prática.  Qual é o nosso protagonismo futuro, diante desse retorno da sociedade aos serviços de saúde? Como nós vamos preparar o paciente que vai retornar à emergência e ao hospital? O profissional que vai retornar a operar, que vai retornar a fazer o atendimento dos hospitais, dos laboratórios, dos serviços de imagem? Como vão recepcionar e como nós vamos trabalhar essa nova sociedade? Então a gestão, a valorização e a proatividade de escuta do paciente, dos profissionais de saúde, que são para eles que eu deixo minha última mensagem: eu disse que a saúde saiu muito mais fortalecida no mundo como um todo por mais importância que as sociedades mundiais davam de valor a saúde e eu tenho certeza que após essa pandemia que não sabemos quando vai terminar, ela vai ser diferente - mas nós temos que valorizar os profissionais de saúde que sacrificaram, muita das vezes, as suas famílias, sacrificaram as suas vidas em prol do trabalho que eles ofereceram e aí vem a solidariedade, a compaixão; o novo olhar, de vida que todos passaram a ter no seu isolamento social, não importa o nível, todos tiveram um novo pensamento, um novo olhar de vida. Mas não podemos jamais esquecer o trabalho dessa equipe multidisciplinar que proporcionou o que você disse: o nosso atendimento não deixou a desejar em nada! Aliás, eu sempre digo, o sistema de saúde brasileiro pode ter dificuldades, uma demora no público ou no privado, mas todo cidadão que está no nosso país jamais deixará de ser atendido e sabemos que nem sempre é assim.

Enrico: Não vou adaptar o meu objetivo final de homenagear, realmente, esses profissionais médicos fazendo coro ao que acabamos de ouvir. Foram guerreiros, lembrando que 70% desse grupo ou mais, é formado por mulheres. Profissionais que estiveram tratando do desconhecido, mas que foram bravos e permaneceram, muita das vezes, longe de casa, indo para hotéis, fazendo adaptações. A doença é tão improvável. Ela causa tantas coisas diferentes em pacientes e todos aqueles profissionais, além do médico, também foram muito importantes para que esses pacientes soubessem ou reaprendessem a andar, comer, falar, respirar. No mundo inteiro a gente ouviu as pessoas aplaudindo, tocando violino, cantando, e aqui a gente vê as pessoas sendo expulsas do metrô.

Aproveito ainda para lembrar que as mesmas mulheres que estão na linha de frente hoje vêm sofrendo com a violência doméstica, ainda maior na crise. Essa é a minha colocação final de que elas têm o nosso apoio, são formidáveis e que merecem todo o nosso respeito.

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